HERIT-AGES:
Transições Vítreas
Com mais de 5000 anos de história, o vidro faz parte do quotidiano. O plástico, com uma história muito mais recente, também é um material universal cuja produção ultrapassou outros mais antigos. Em Portugal, há indícios de que a indústria do plástico se desenvolveu a partir da indústria do vidro, com os seus trabalhadores e as suas competências. Atualmente, o plástico é muito visível devido ao seu impacto negativo no meio ambiente, enquanto o vidro, embora tenha sido amplamente utilizado e permitido avanços técnicos significativos, não recebeu tanta atenção do público.
O termo Transição Vítrea, que dá o nome à exposição, é um intervalo específico de temperatura no qual, tanto os vidros quanto os plásticos, mudam de um estado sólido para um estado viscoso.
A exposição HERIT-AGES: Transições Vítreas tem como objetivo apresentar os resultados de uma pesquisa exploratória sobre as relações entre as indústrias do vidro e do plástico, além de refletir sobre como a presença desses materiais nos museus pode influenciar as perspetivas das futuras gerações sobre o nosso tempo atual.

Idades da História
Organizar o tempo com termos como Idades, Eras ou Períodos, é natural ao ser humano. Uma classificação importante que relaciona tempo com a evolução e uso dos materiais, foi feita por Christian Jurgensen Thomsen no século XIX. Com objetivo de organizar as coleções do museu nacional dinamarquês, Thomsen propôs uma divisão baseada no progresso tecnológico. Este argumentava que os materiais mais primitivos eram substituídos por materiais mais avançados e classificou as coleções do museu em objetos feitos em pedra, bronze e ferro, criando assim o sistema das três idades: Idade da Pedra, Idade do Bronze e Idade do Ferro.
Assim, lançamos algumas perguntas: Em que idade estaremos agora? Qual o material que tem maior destaque atualmente? Qual é a perspetiva que faz mais sentido, a do progresso tecnológico ou do impacto geológico?

Indústria
O vidro tem sido produzido em moldes há pelo menos 2500 anos. Inicialmente, de madeira e barro resistente ao calor, foram evoluindo ao longo do tempo. No século XIX, adotaram-se moldes de ferro fundido e, no século XX, surgiram os de aço. Nessa época, os fabricantes portugueses perceberam o potencial do plástico e também passaram a utilizar os moldes para produzir objetos desde os anos 1930..
Este momento marcou a conexão entre as indústrias do vidro e do plástico através de uma terceira indústria, a dos moldes. A partir daí, começaram a surgir objetos em plástico com as mesmas formas, funções e decorações encontradas no vidro. O vidro e o plástico passaram a coexistir, disponíveis para os consumidores.

Quotidiano
Ao observarmos com atenção, é evidente como as propriedades dos vidros e dos plásticos permitem que estes sejam utilizados para as mesmas finalidades, embora com algumas características distintas. A partir da década de 1930, os materiais plásticos começaram a substituir outros materiais, como os vidros, graças a argumentos como: menor custo, leveza, resistência e modernidade. Estes materiais gradualmente ocuparam os lares das pessoas e passaram a fazer parte do seu imaginário. Encontramos inúmeros exemplos dessa cultura material nos próprios objetos, em publicidade ou até em filmes.

Património
Será que a definição de Idades influencia o que os museus decidem incorporar e preservar?
Antecessor e sucessor em muitos objetos, como será o vidro preservado e tratado na história?
SComo é que a aversão ao plástico, pelo seu uso excessivo, vai influenciar a sua preservação museológica?
Como vão os objectos em vidro e em plástico ser retratados na história?
Sabemos que não existem tomadas de decisão livres de contexto. Todas as decisões são assentes na forma com vemos e interpretamos o mundo. Com base nesta ideia, perguntamo-nos como é que o nosso contexto atual, altamente focado em questões ambientais e na procura de uma sociedade mais sustentável, está a afetar a preservação do património em plástico e em vidro?

